A Importância do Ambiente Facilitador no Trabalho dos Serviços Residenciais Terapêuticos: Um Diálogo com a Teoria de Winnicott
Terapeuta Ocupacional,
Acompanhante Terapêutico,
Psicanalista
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Este artigo tem como objetivo discutir a relevância do ambiente facilitador no trabalho desenvolvido pelos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), a partir de uma perspectiva winnicottiana. A obra de Donald Winnicott, especialmente suas reflexões sobre a importância do ambiente e do cuidado multiprofissional, oferece subsídios teóricos para compreender a atuação dos SRTs, que visam à desinstitucionalização e à reinserção social de pessoas egressas de longas internações psiquiátricas. O texto aborda a concepção de "setting ampliado", proposta por Winnicott, e suas implicações para a prática dos profissionais envolvidos nesses serviços. Por meio de revisão bibliográfica, o artigo explora os paralelos entre as experiências de Winnicott durante a Segunda Guerra Mundial e o trabalho contemporâneo dos SRTs, destacando a importância de ambientes que promovam o amadurecimento emocional e a integração/inclusão social. Conclui-se que a provisão de um ambiente suficientemente bom, baseado em confiabilidade, segurança e não retaliação, é fundamental para o sucesso terapêutico e a reconstrução dos laços sociais.
Palavras-chave: Winnicott; Serviços Residenciais Terapêuticos; Ambiente Facilitador; Desinstitucionalização; Cuidado Multiprofissional.
Keywords: Winnicott; Therapeutic Residential Services; Facilitating Environment; Deinstitutionalization; Multiprofessional Care.
Introdução
As experiências vividas por Winnicott durante a Segunda Guerra Mundial, marcadas pela necessidade de evacuação de crianças e pela criação de lares e serviços que as abrigassem, foram fundamentais para o desenvolvimento de sua teoria. Nesse contexto, ele destacou a importância da atuação de equipes multiprofissionais, capazes de oferecer novos cuidados para processos de sofrimento psíquico, esfacelamento de laços familiares e questões sociais complexas. Além disso, Winnicott reconheceu as experiências antissociais como uma séria questão patológica, resultante de processos de deprivação ambiental.
Este trabalho tem como objetivo traçar paralelos entre os pensamentos de Winnicott e o trabalho desenvolvido pelas equipes dos Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs). Para tanto, será realizada uma breve explanação sobre esses serviços, contextualizando sua criação e funcionamento, a fim de estabelecer um diálogo sobre a importância de ambientes facilitadores para o amadurecimento emocional de indivíduos que vivenciaram falhas ambientais em seus processos de desenvolvimento. O estudo também busca retratar aspectos presentes nos escritos de Winnicott sobre as experiências de abrigamento de crianças durante a guerra, bem como discutir questões relacionadas à consolidação de ambientes facilitadores para pessoas que viveram em manicômios.
Para alcançar esses objetivos, foram realizados levantamentos bibliográficos e revisões referenciais da vasta obra de Winnicott, além de textos que abordam a temática sob a perspectiva winnicottiana. A partir dessa base teórica, o artigo propõe uma reflexão sobre a relevância do ambiente e do cuidado multiprofissional na promoção do amadurecimento emocional e na reconstrução de laços sociais.
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Desenvolvimento
Essa afirmação de Winnicott ilustra a complexidade do processo de amadurecimento emocional, especialmente em contextos marcados por falhas ambientais e traumas. No Brasil, os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs) representam um exemplo prático dessa ideia. Instalados em comunidades e bairros, próximos a serviços substitutivos ao manicômio, essas casas abrigam de 8 a 10 moradores, todos egressos de longas internações psiquiátricas. Esses indivíduos compartilham experiências comuns em suas histórias de vida, como a perda de contato com familiares e os efeitos devastadores da institucionalização, que incluem desumanização, cronificação, enclausuramento, segregação e fragilização das trocas sociais.
Em 2001, como resposta às lutas pela reforma psiquiátrica no país, a Lei nº 10.216 (Brasil, 2001) criou dispositivos para reestruturar a Rede de Atenção à Saúde, incluindo a Rede de Atenção Psicossocial e nela os SRTs. Esses serviços visam à desospitalização, desinstitucionalização, habilitação e reabilitação psicossocial de pessoas com transtornos mentais graves, promovendo seu desenvolvimento maturacional emocional e ressocialização. Trata-se de uma modalidade de moradia assistida, inserida na comunidade e vinculada à rede pública de saúde, que oferece cuidado integral e personalizado, garantindo liberdade, inclusão social e o exercício da cidadania.
Cada SRT é composto por uma equipe multiprofissional, incluindo 10 a 12 acompanhantes/cuidadores, uma técnica de enfermagem (40 horas semanais) e um supervisor (40 horas, com cobertura remota 24 horas por dia). Além disso, há a integração com serviços substitutivos, como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Mas qual é, de fato, o papel desempenhado por um serviço que carrega em seu nome o título de "Residencial Terapêutico"?
A partir dessa contextualização, é possível estabelecer um paralelo com as experiências de Winnicott durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele trabalhou com crianças evacuadas e desabrigadas. Para muitas dessas crianças, consideradas "difíceis" ou "desajustadas", a permanência em lares substitutos tinha como objetivo protegê-las e ampliar sua noção de lar. Para outras, era necessário fornecer um ambiente primário que corrigisse falhas maturacionais decorrentes de graves privações em seus lares originais (Winnicott, 1947/1995, p. 69). Winnicott destacou que, em muitos casos, a única forma de avaliar a qualidade do ambiente inicial era oferecer um lar substituto adequado e observar como a criança o utilizava (Winnicott, 1950/1995, p. 181).
Nos SRTs, a maioria dos moradores são adultos que vivenciaram privações ambientais graves, resultando em traumas e dificuldades para atribuir significado às experiências, organizar sensações ou até mesmo o próprio corpo. Essas falhas ambientais, somadas a adaptações insuficientemente boas, levaram a distorções psicóticas e, consequentemente, a longos períodos de internação em manicômios. Nos SRTs, o ambiente físico é semelhante ao de uma casa comum, com sala, quartos, cozinha, banheiros e quintal. No entanto, o que diferencia esses serviços é a concepção de ambiente como um espaço composto por pessoas – moradores e trabalhadores – que, por meio de relações de confiança e cuidado, atendem às necessidades individuais de cada morador. Essa assistência é singular, humana e afetiva, adaptando-se aos ritmos e particularidades de cada um, muitas vezes de modo semelhante ao holding materno.
Winnicott (1970a/1995) descreve que a terapia em ambientes residenciais não se limita a intervenções individuais, mas envolve todo o contexto ambiental, desde a estrutura física até as relações humanas. Ele afirma: “Bem depressa eu aprendi que a terapia estava sendo feita na instituição, pelas paredes e pelo telhado; pela estufa de vidro que fornecia um alvo magnífico para pedras e tijolos... A terapia estava sendo realizada pelo cozinheiro, pela regularidade da chegada das refeições à mesa, pelas colchas das camas quentes e coloridas, pelos esforços de David (supervisor) para manter a ordem apesar da escassez de pessoal e um constante senso da inutilidade de tudo isso, porque a palavra sucesso era reservada para algum outro lugar e não para a tarefa exigida...” (p. 226-227).
Essa provisão ambiental reparadora, sustentada na concretude do espaço, na continuidade das ações e na presença física e emocional das pessoas, dialoga com as tarefas primordiais do estágio de dependência absoluta, como a integração no tempo-espaço e o desenvolvimento de relações fenomênicas e objetais (Dias, 2017). A ideia é que esse ambiente suficientemente bom permita aos moradores vivenciar experiências internas de melhor qualidade, promovendo ajustes pessoais e sociais e ampliando as possibilidades de um setting terapêutico efetivo.
Winnicott (1970a/1995) destaca cinco princípios essenciais para o trabalho em ambientes residenciais:
Confiabilidade: O ambiente deve opor-se às experiências caóticas e imprevisíveis dos lares originais, promovendo confiança e reduzindo sentimentos de imprevisibilidade.
Segurança: A segurança física e emocional é fundamental, desde o holding corporal até a estabilidade sociofamiliar.
Não retaliação: Os cuidados não devem ser pautados em juízos morais ou abordagens punitivas, mas sim em uma compreensão terapêutica dos comportamentos.
Gratidão: Os profissionais não devem esperar gratidão imediata, mas sim reconhecer a importância de sua função no processo terapêutico.
Sobrevivência: A capacidade de sobreviver às crises e conflitos, sem retaliação, é essencial para a construção de relações de cuidado e amorosidade.
Esses princípios reforçam a complexidade do trabalho social, que vai além do holding inicial, abrangendo o cuidado familiar e comunitário. O trabalho dos SRTs aproxima-se da assistência social, com cuidadores assumindo papéis semelhantes aos de familiares e terapeutas, sustentando dinâmicas cotidianas e promovendo a integração dos moradores. Como afirma Winnicott (1963/2008), “a integração é vitalmente importante nesse contexto, e seu trabalho é muito de contrabalançar forças desintegradoras no indivíduo, na família e em grupos sociais localizados” (p. 2004).
No acompanhamento de pessoas psicóticas, o ambiente suficientemente bom permite a emergência de sentimentos de constância e confiabilidade, dinamizando as relações entre moradores e profissionais. Aspectos positivos, como amorosidade, e negativos, como ódio e confusão, são reconhecidos como sintomas do sofrimento psíquico. As crises, embora desafiadoras, podem ser vistas como oportunidades de mudança e transformação.
Winnicott (1970b/2021) enfatiza que a cura, em sua raiz etimológica, significa cuidado. A confiabilidade no modo humano de se relacionar é essencial para atender à dependência inerente à condição humana. Nos SRTs, o cuidar-curar é uma extensão do holding, facilitando processos de maturação emocional e promovendo a participação dos moradores como cidadãos ativos na sociedade.
Pensar a casa como um ambiente relacional que promove o amadurecimento emocional e o desenvolvimento pessoal permite compreender a importância desse tema, que dialoga não apenas com a psicanálise, mas também com áreas como filosofia, arquitetura, sociologia e política. Essa discussão, no entanto, abre espaço para futuras reflexões e construções teóricas.
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Conclusão
“Tudo começa em casa.” Esse é o título de um dos livros editados postumamente por Clare Winnicott, assistente social e esposa de Donald Winnicott. A ênfase dada ao tema da casa como ambiente fundamental para a constituição dos seres humanos reforça a ideia de que somos produtos de um processo constante de integração com o meio, que ganha maturidade à medida que somos apresentados a ambientes facilitadores capazes de promover o desenvolvimento de nossas potencialidades.
Foi no contexto do trabalho realizado em Oxfordshire durante a Segunda Guerra Mundial (1940), quando foi necessária a evacuação de crianças para lares substitutivos, que Winnicott colaborou com Clare Britton, assistente social que posteriormente se tornaria sua esposa. Essa experiência destacou a importância da atuação de equipes multiprofissionais, uma vez que os casos acompanhados envolviam não apenas questões psíquicas, mas também sociais. Nesse sentido, um “campo psicossocial” começou a reverberar em sua obra, ampliando o escopo da psicanálise para além do setting tradicional.
Winnicott conferiu grande importância aos profissionais da Assistência Social, que integravam as equipes de psiquiatria e eram responsáveis pelo planejamento e administração dos lares substitutivos. Ele reconheceu que o trabalho desses profissionais possuía qualidades terapêuticas, especialmente no cuidado de pacientes graves e crianças desajustadas ou com tendências antissociais. Para esses indivíduos, a oferta de um lar estável, principalmente em termos emocionais, era essencial para criar uma base vital satisfatória.
As experiências durante a guerra provocaram mudanças significativas no pensamento de Winnicott. Já crítico da psicanálise como uma prática hermética, ele promoveu aberturas que permitiram à clínica ganhar novos ares e settings ampliados, conferindo à psicanálise e ao trabalho do analista um valor social mais abrangente. Essa transformação foi evidente em sua atuação durante a criação dos serviços substitutivos para crianças evacuadas. Winnicott e outros membros da sociedade psicanalítica da época demonstraram preocupação com o futuro, reconhecendo que a separação entre mães e filhos durante a guerra geraria indivíduos com sofrimentos profundos e impactos negativos na ordem social.
Assim, Winnicott consolidou-se como um pensador criativo e inovador, cuja práxis transformadora influenciou profundamente a história da psicanálise. Sua abordagem, que integrava o cuidado emocional e social, continua a inspirar práticas contemporâneas, como os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), que buscam oferecer ambientes facilitadores para o amadurecimento emocional e a reinserção social de indivíduos com transtornos mentais graves.
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Referências Bibliográficas:
BRASIL. (2001). Ministério da Saúde. Lei n.º 10.216, de 6 de abril de 2001. Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental. Lex-Legislação em Saúde Mental 1990-2004, Brasília, 5.ed. amp., p. 17-19, 2004.
DIAS, E. O. (2017). A Teoria do Amadurecimento. 4ª. ed., São Paulo: DWW Editorial.
FULGÊNCIO, L. (2016). Por que Winnicott? 1ª. Ed, São Paulo: Zagodoni Editora Ltda.
PHILLIPS, A. (2006). Winnicott. 1ª. Ed., São Paulo: Editora Ideias & Letras.
WINNICOTT, D. W. (1947). Tratamento em regime residencial para crianças difíceis. In: D. W. Winnicott. Privação e Delinquência (pp. 59-76). 2ª. Ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1995.
WINNICOTT, D. W. (1950). A criança desapossada e como pode ser compensada pela falta de vida familiar. In: D. W. Winnicott. Privação e Delinquência (pp. 179-194). 2ª. Ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1995.
WINNICOTT, D. W. (1963). Os doentes mentais na prática clínica. In: D. W. Winnicott. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional (pp. 196-206). São Paulo: Artmed Editora S.A, 2008.
WINNICOTT, D. W. (1969). Liberdade. In: D. W. Winnicott. Tudo começa em casa (pp. 272-283). 1ª. Ed. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
WINNICOTT, D. W. (1970a). Assistência Residencial como Terapia. In: D. W. Winnicott. Privação e Delinquência (pp. 225-232). 2ª. Ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1995.
WINNICOTT, D. W. (1970b). Cura: Uma conversa com médicos. In: D. W. Winnicott. Tudo começa em casa (pp. 131-141). 1ª. Ed. São Paulo: Ubu Editora, 2021.

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