Depressão e impurezas: Contribuições de Winnicott na compreensão da formação das depressões.


 Depressão e impurezas: Contribuições de Winnicott na compreensão da formação das depressões.  

  
                                                                                                                                     André Miolo Nunes

Terapeuta Ocupacional,

Acompanhante Terapêutico,

 Psicanalista

____________________________________________________________________________________________________

Resumo

Este artigo tem como objetivo explorar a concepção de depressão na obra de Donald Winnicott, destacando o estágio do concernimento como um marco no desenvolvimento emocional. Winnicott afasta-se da visão freudiana, que atribui a etiologia da depressão à pulsão de morte e ao complexo de Édipo, e propõe uma leitura inovadora, vinculando a depressão à capacidade de integração emocional e à constituição do self. Por meio de revisão bibliográfica, o texto aborda a importância da agressividade, da culpa e da reparação no processo de amadurecimento, destacando a depressão como uma conquista emocional. Conclui-se que a depressão, na perspectiva winnicottiana, é um fenômeno complexo, que pode ser tanto patológico quanto constitutivo da saúde mental, dependendo do contexto do desenvolvimento emocional.

Palavras-chave: Depressão, Winnicott, Concernimento, Desenvolvimento emocional, Psicanálise.


Abstract

This article aims to explore the conception of depression in the work of Donald Winnicott, highlighting the stage of concern as a milestone in emotional development. Winnicott moves away from the Freudian view, which attributes the etiology of depression to the death drive and the Oedipus complex, and proposes an innovative reading, linking depression to the capacity for emotional integration and the constitution of the self. Through a bibliographic review, the text addresses the importance of aggressiveness, guilt, and reparation in the maturation process, highlighting depression as an emotional achievement. It is concluded that depression, from a Winnicottian perspective, is a complex phenomenon, which can be both pathological and constitutive of mental health, depending on the context of emotional development.

Keywords: Depression, Winnicott, Concern, Emotional development, Psychoanalysis.

___________________________________________________________________________________
 Introdução

Em sua obra, Winnicott desenvolveu uma nova perspectiva sobre a depressão, alterando significativamente sua concepção no campo psicanalítico. Essa mudança permitiu que novas interpretações sobre os processos vividos por pacientes com quadros depressivos fossem elaboradas. Diferentemente da concepção freudiana, que buscava confirmar a etiologia sexual das neuroses, centrando-se no complexo de Édipo, na melancolia e no conceito de pulsão de morte como eixos explicativos, Winnicott abordou o tema com especial interesse, integrando-o em sua teoria do amadurecimento e destacando o estágio do concernimento como um marco fundamental em sua concepção.

Para Winnicott, a experiência presente nos processos de integração durante o estágio da dependência relativa envolve aspectos cruciais relacionados às tarefas de integração da vida instintual. Isso inclui a consideração da agressividade e dos sentimentos dela decorrentes, experiências que se originam no estágio pré-concernimento/concernimento. É nesse estágio que ocorre a estruturação do eu como uma unidade, uma pessoa inteira, trazendo consigo a conquista da capacidade para deprimir-se (DIAS, 2017).

Como mencionado anteriormente, no campo dos estudos sobre a depressão, Winnicott ganha relevância na psicanálise ao distanciar-se do modelo edipiano e ao não recorrer à teoria pulsional (especialmente à pulsão de morte), ambos postulados por Freud, para compreender a constituição do mundo interno e relacional do indivíduo. Segundo Moraes (2014), ao dedicar-se à questão da depressão, Winnicott flexibilizou o saber psicanalítico, operando uma mudança de paradigma. A reflexão sobre os processos depressivos foi um dos principais impulsionadores para essa transformação.

O presente artigo tem como objetivo retratar alguns aspectos relacionados a esse período do desenvolvimento, em especial o estágio do concernimento, abordando a depressão como uma conquista no processo de maturação. Além disso, busca-se discutir como a presença de impurezas, decorrentes de tarefas não realizadas ou não finalizadas em etapas anteriores, contribui para a constituição da estruturação do psiquismo, resultando em uma diversidade de quadros depressivos.

Para tanto, foram realizados levantamentos bibliográficos e leituras referenciais da vasta obra de Winnicott, bem como de textos que abordam essa questão sob a perspectiva winnicottiana.

__________________________________________________________________________

Desenvolvimento

No processo de desenvolvimento emocional, Winnicott (1963a/2008) descreve que o bebê se constitui como uma unidade por meio de integrações e conquistas, após um início de dependência absoluta. Aos poucos, ele relativiza essa dependência e percebe que nem tudo advém dele, ou seja, há um outro. Os cuidados oferecidos por uma mãe suficientemente boa, inicialmente indispensáveis e repletos de preocupações maternas, passam a ser adaptados às novas demandas do processo de amadurecimento. As oposições entre as solicitações feitas e o atendimento dessas necessidades começam a ser percebidas pelo bebê e apresentadas pela mãe-ambiente e pela mãe-objeto em uma espécie de “desadaptação”. No entanto, algo crucial ocorre nessa fase da dependência relativa: o bebê une ambas as figuras maternas em uma só, a mãe-pessoa.

Após a entrada no estágio do “EU SOU”, a relação com os objetos e fenômenos transicionais se expande. Esses objetos são paradoxalmente criados e encontrados pela criança, compondo tanto a realidade interna quanto a externa. Nesse movimento, realidade interna e externa se aproximam e se distanciam, abrindo espaço para uma terceira área de experiências “intermediárias”. É por meio dessa passagem transicional que a criança se integra cada vez mais no “EU SOU” (diferente do não-eu), ao mesmo tempo em que a realidade externa se torna mais contundente e o eu se firma como tal, consolidando também a realidade interna e o mundo pessoal.

É importante destacar que, na criação da relação com a externalidade, aspectos destrutivos estarão presentes. Para que o objeto subjetivo saia da área de onipotência do bebê (ilusão) e adquira aspectos objetivos, é necessária a presença da agressividade. Como afirma Dias (2017, p. 202), é preciso “contar com certa capacidade para odiar, ativa ou passivamente, que possa ser acionada quando se faz necessário”. Nessa fase, ocorre a fusão de elementos agressivos e instintivos, uma tarefa desafiadora tanto para o bebê quanto para a mãe, que experienciará boa parte dessa destrutividade na relação.

Essa agressividade, quase sinônimo de atividade vital, faz parte das expressões primitivas do amor. Segundo Moraes (2014, p. 234-235), ela “precisa de oposição para dar realidade às experiências, é a que faz o bebê ‘necessitar de um objeto externo’ que se oponha, e não apenas de um objeto que o satisfaça”. O estado de tensão originado no impulso agressivo precisa ser reconhecido pela mãe e, de alguma forma, atendido, para que possa ser integrado como experiência pessoal.

A mãe deve sustentar essa situação ao longo do tempo, sobrevivendo às investidas da criança. Ao integrar sua destrutividade, o bebê experimenta sentimentos de culpa, que podem dar origem a gestos de reparação. O ambiente, do qual a mãe continua sendo parte essencial, não deve decepcionar a criança, mas também não deve forçá-la a reconhecer a realidade externa precocemente. A passagem para essa fase depende não apenas da ambiência, mas também das experiências de desilusão, transicionalidade, uso do objeto e dos processos mentais envolvidos.

Nessa etapa, em que a posse do “EU” é consolidada, outras integrações ocorrem. A criança une em si impulsos amorosos e destrutivos, além de integrar a capacidade de destruir e reparar, formando o que Winnicott denomina “Círculo Benigno”. Ela também assimila sentimentos da vida instintual, valores pessoais e morais, a capacidade de sentir culpa e de assumir responsabilidade pela vida. Ao final desse processo, o indivíduo se sente uma pessoa inteira, capaz de se relacionar com outros (também pessoas inteiras), assumindo seus impulsos instintuais e agressivos nas relações interpessoais.

O estabelecimento do Círculo Benigno envolve a capacidade de reparação e restituição, decorrentes do reconhecimento da destrutividade presente no amor instintivo e em suas fantasias. Esse é um marco do estágio do concernimento, no qual a agressividade é vista como algo essencial e, por vezes, intencional. O bebê percebe que seus atos agressivos, durante estados de maior excitação, são dirigidos à pessoa que cuida dele, da qual depende e que o tranquiliza. Esse reconhecimento gera sentimentos de culpa e medo, criando uma ambivalência na relação do bebê consigo mesmo e com sua mãe. Em resposta, ele busca produzir gestos que restituam e reparem a mãe-pessoa.

Por sua vez, a mãe também experimenta essa ambivalência, ao mesmo tempo em que se dispõe a receber e proteger o bebê. Ela permite que ele viva a integração de sua agressividade, oferecendo tempo e espaço para que a criança experimente o “machucar-e-remendar” repetidamente, até que ela acredite na possibilidade de reparação e encontre meios de suportar a culpa inicial. Como destaca Dias (2017, p. 235), “sobreviver significa, portanto, que a mãe não desiste de exercer seu papel no processo de desilusão: ela suporta ser odiada”.

O estágio do concernimento, ao mesmo tempo em que desencadeia sentimentos de culpa e um humor mais deprimido, também é marcado pelo estabelecimento de experiências construtivas. O concernimento implica maior capacidade da criança de tolerar sua realidade interna, mesmo diante do mal-estar e do desconforto decorrentes da dificuldade de aceitar seus sentimentos. Essa fase está diretamente associada à capacidade de deprimir-se e ao sentimento de responsabilidade, permitindo que aspectos saudáveis do autocuidado se fortaleçam.

Pode-se dizer que há uma incorporação dos cuidados recebidos, uma integração que permite ao indivíduo lidar com o mundo de maneira mais confortável e eficaz, sem negar a necessidade de momentos de recolhimento para elaboração. O indivíduo integrado inclui, em seus cuidados, a preocupação com os outros, com o ambiente e com os efeitos de suas ações, unindo impulsos amorosos e destrutivos, além da capacidade de reparar danos e de deprimir-se, frutos do sentimento de culpa.

Como afirma Winnicott (1971/1990, p. 146), “a partir desta base, o indivíduo pode tornar-se capaz de substituir o cuidado recebido por um cuidado-de-si-mesmo, e pode desta forma alcançar uma grande independência, que não é possível nem no extremo paranóide nem no extremo ingênuo”.

Com base em diferentes modos de ser no mundo, Winnicott propõe uma reclassificação nosográfica, considerando indivíduos que receberam cuidados suficientemente bons no início da vida e aqueles que não os tiveram, bem como aqueles que atingiram etapas do amadurecimento e os que não as alcançaram. Ele categoriza as patologias em três grupos: os que se integraram e se tornaram pessoas inteiras (neuróticos), os recém-integrados (deprimidos) e os não integrados (psicóticos). Como ele mesmo afirma, “entre a neurose e a esquizofrenia há todo um território coberto pela palavra depressão. Quando digo entre, realmente quero dizer que na etiologia destas doenças os pontos de origem da depressão se situam entre os pontos de origem da esquizofrenia e da neurose” (WINNICOTT, 1963b/2008, p. 199).

Para Winnicott, a depressão está intrinsecamente ligada às questões do concernimento. É essencial considerar como esse estágio se desenvolveu, os eventos marcantes, as capacidades alcançadas e os problemas relacionados às conquistas presentes não apenas na fase da dependência relativa, mas também em etapas anteriores, ou mesmo na perda dessas conquistas.

Como patologia, a depressão é organizada em dois tipos principais: reativa (simples e patológica) e psicótica. A diferenciação entre elas ocorre por meio da análise da história de vida do indivíduo e de uma avaliação de seu desenvolvimento maturacional. A investigação baseia-se no modo como a pessoa integrou, em sua personalidade, os conflitos relacionados à acomodação da agressividade, seus impulsos destrutivos, a capacidade de suportar responsabilidade e culpa, os conflitos do mundo interno, além do uso de defesas antidepressivas ou da própria capacidade de deprimir-se como estratégias para controlar instintos ameaçadores diante da vida e das relações (MORAES, 2017).

As depressões reativas simples incluem indivíduos que lidam com conflitos internos sem grandes dificuldades, mantendo vivos sentimentos bons e maus. Eles toleram momentos de humor deprimido, resolvendo conflitos com tempo e elaboração, sem recorrer a mecanismos de defesa para evitar ou acelerar o desconforto. Essas pessoas alcançaram uma integração total, sendo capazes de separar fatos e fantasias, tolerar a destrutividade e suportar a ambivalência (MORAES, 2017).

Já as depressões psicóticas envolvem indivíduos que sofreram rupturas ou distorções no processo de amadurecimento, desenvolvendo problemas na estruturação do ego e da personalidade, com aspectos esquizoides ou distúrbios neuróticos que encobrem uma estrutura psicótica. Ainda que apresentem alguma integração do eu ou da unidade psicossomática, as distorções decorrentes de interrupções na linha da continuidade do ser tornam essa integração frágil. Essas pessoas são incapazes de tolerar desconfortos e aspectos destrutivos, sentindo-se ameaçadas por conflitos internos e padecendo de temores desintegrativos. Defesas antidepressivas e estados depressivos são vividos como doença, manifestando-se de diversas formas (MORAES, 2017).

Para Winnicott, não há distinção entre esses dois tipos de depressão quando se considera o cerne da questão: problemas ocorridos no estágio do concernimento e no estabelecimento do círculo benigno. No entanto, sob a perspectiva da teoria do amadurecimento e do conceito de força do ego, essas depressões ganham diversidade de categorias quando “impurezas” estão presentes na constituição organizacional, aproximando-se da psicose, dos delírios persecutórios, dos estados hipocondríacos, das defesas maníacas, das oscilações maníaco-depressivas, dos exageros nas fronteiras do ego ou das impurezas na melancolia e no mau humor.

____________________________________________________________________________________________________

Conclusão

Por fim, é importante destacar que, na obra de Winnicott, a depressão ganha contornos distintos daqueles apresentados anteriormente na psicanálise. Ela é entendida, em parte, como uma capacidade constitutiva da continuidade do ser. A capacidade de deprimir-se é valorizada, estando intimamente ligada ao conceito de força do ego e ao estabelecimento do self.

A depressão ocupa um lugar especial na formação da subjetividade humana, particularmente na relação entre mãe e bebê. Além da ambivalência presente nessa relação, onde elementos bons e maus, amor e ódio, destrutividade e reparação se entrelaçam no processo de integração, a depressão concentra e conduz uma etapa crucial do processo de humanização. Esse processo consiste em apresentar, paradoxalmente, um ao outro (dois humanos – mãe e bebê, ou melhor, mãe-objeto/mãe-ambiente/mãe-pessoa e criança) que, a partir das experiências de suportar a agressividade, fortalecem o ego e sustentam a “crise”, mantendo a fé de que a integração triunfará.

Outra contribuição significativa de Winnicott é sua concepção do estágio do concernimento, sua relação com os sentimentos de culpa e a integração instintual, bem como a necessidade de criação e manutenção de um círculo benigno para fortalecer a experiência de reparação. Esses elementos ocupam um espaço central e originário tanto nos aspectos saudáveis do desenvolvimento quanto nos processos de luto, estando também presentes nas condições patológicas.

Ao propor novos modos de pensar a depressão, Winnicott demonstrou coragem para expandir e reformular o conhecimento psicanalítico. Ele ousou implementar mudanças inovadoras, inclusive paradigmáticas, ao perceber que as teorias vigentes não eram suficientes para abarcar ou responder aos problemas encontrados na prática clínica. Suas reflexões foram profundamente influenciadas por vivências em contextos de crise, como os episódios devastadores das guerras mundiais, nos quais a depressão emergiu como uma resposta humana a traumas coletivos.

Em um contexto de guerra ou pós-guerra, é provável que o número de pessoas que desenvolveram quadros depressivos tenha sido significativo. Da mesma forma, em um mundo pós-pandêmico, torna-se urgente democratizar os conhecimentos de Winnicott sobre a depressão, a fim de preservar e cuidar das pessoas de modo mais amplo e eficaz. Sua abordagem oferece ferramentas valiosas para compreender e intervir nos processos depressivos, tanto em nível individual quanto coletivo, reforçando a importância de sua teoria para a psicanálise e para a saúde mental contemporânea.

____________________________________________________________________________________________________


Referências

DIAS, E. O. A Teoria do Amadurecimento. 4ª ed. São Paulo: DWW Editorial, 2017.

MORAES, A. A. R. E. de. Depressão na obra de Winnicott. 1ª reimpressão. São Paulo: DWW Editorial, 2021.

WINNICOTT, D. W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. São Paulo: Artmed Editora, 2008.

WINNICOTT, D. W. Natureza Humana. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1990.


Comentários