O Cotidiano como Plano de Multiplicidades: Reflexões a Partir da Clínica Domiciliar


 André Miolo Nunes

Terapeuta Ocupacional,

Acompanhante Terapêutico,

 Psicanalista

O Cotidiano como Plano de Multiplicidades: Reflexões a Partir da Clínica Domiciliar

Introdução

No exercício da clínica domiciliar, tenho me aproximado de maneira significativa da esfera de trocas simbólicas e materiais que constituem o cotidiano. Essa aproximação se dá não apenas pelo acesso ao espaço privado dos indivíduos — um universo de intimidade que o domicílio resguarda —, mas também pelo contato direto com os objetos, utensílios e rotinas que articulam a relação entre o mundo externo e o interno. Testemunhar a cadência das atividades que moldam a existência no âmbito mais familiar possível tem me permitido ressignificar o cotidiano, transcendendo sua concepção como mero setting, espaço potencial ou cenário passivo. Neste texto, proponho uma reflexão sobre o cotidiano enquanto plano de existência, um terreno treliçado de pequenas ações que sustentam a vida em sua complexidade.

O Cotidiano como Plano: Desconstruindo a Noção de Campo

Parte dessa reflexão emerge de diálogos teóricos, em especial a partir da interlocução com Àgatha Magiore, que resgatou e introduziu em nossas discussões o conceito-exercício de esquizo-ocupação, conforme abordado por Costa e Almeida (2009). Os autores problematizam a noção de "campo" na terapia ocupacional, argumentando que essa categoria está atrelada a uma lógica binária e dicotômica, incapaz de abarcar a multiplicidade inerente às práticas cotidianas. Em contrapartida, propõem a ideia de plano como um espaço de coexistência e interferência mútua, onde os elementos não se excluem, mas se intensificam nos encontros.

Essa perspectiva reverbera na compreensão do cotidiano como um plano dinâmico, no qual hábitos, capacidades, habilidades e relações se entrelaçam, conferindo sentido à existência humana. A vida, enquanto continuum de atividades (Quarentei, 2001) , se estrutura a partir dos cuidados que o indivíduo dedica a si mesmo e ao seu entorno, constituindo uma teia de significados que ultrapassa a mera repetição de gestos.

Três Terrenos-Conceitos do Cotidiano: Humildade, Prosaico e Imperfeição

Se o cotidiano se apresenta como um plano de multiplicidades, é possível identificar três terrenos-conceitos que dialogam diretamente com sua tessitura: a humildade, o prosaico e a imperfeição.

  1. Humildade: Refere-se ao reconhecimento da fragilidade e da interdependência que permeiam a vida cotidiana. No domicílio, a clínica se depara com a vulnerabilidade exposta, exigindo uma postura ética que valorize os saberes e limites do outro.
  2. Prosaico: Diz respeito ao caráter ordinário e aparentemente banal das ações cotidianas, que, no entanto, sustentam a existência. Como destacam Heller (2008) e Certeau (2014), é no prosaico que se articulam as estratégias de resistência e adaptação.
  3. Imperfeição: O cotidiano é marcado por falhas, hesitações e ajustes. Longe de ser um plano homogêneo, ele se constitui nas fissuras, nos gestos interrompidos e nas reinvenções diárias.

O Cotidiano como Fronteira Interacional e Política

Ao mesmo tempo em que se configura como um espaço de abrigo e familiaridade, o cotidiano é também um terreno de difícil apreensão, cuja complexidade só se revela na junção de múltiplas perspectivas, como pontua Das (2024). Ele é atravessado por dimensões políticas, éticas, afetivas e sociais — desde as dinâmicas de parentesco e amizade até as expressões de violência, dor e morte. Como afirma Lefebvre (1991), o cotidiano é tanto um lugar de alienação quanto de potencial transformação.

Considerações Finais

Pensar o cotidiano como plano implica reconhecer sua natureza multifacetada e contraditória. Na clínica domiciliar, essa perspectiva permite uma escuta mais atenta às nuances da existência, onde pensamentos "se formam no esconderijo da escuridão" — isto é, nos interstícios do não dito, do improvisado e do aparentemente insignificante. Se, como propõem Costa e Almeida (2009), o plano é um espaço de interferências e coexistências, então o cotidiano se revela como um campo fértil para a terapia ocupacional, onde a vida, em toda sua imperfeição, se desenrola.

Referências

  • CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. Vozes, 2014.
  • COSTA, C. M.; ALMEIDA, M. V. M. Esquizo-ocupação: desterritorializando a terapia ocupacional. Cadernos de Terapia Ocupacional, 2009.
  • DAS, V. Texturas do ordinário, Fazendo Antropologia a luz de Wittgeinstein. Editora Unifesp, 2024.
  • HELLER, A. O cotidiano e a história. Paz e Terra, 2008.
  • LEFEBVRE, H. Critique of Everyday Life. Verso, 1991.
  • QUARENTEI, M S. (2001). Terapia ocupacional e produção de vida. In Anais do 7º Congresso Brasileiro de Terapia Ocupacional (pp. 1-8). Porto Alegre: ABRATO.

 

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