Terapeuta Ocupacional,
Acompanhante Terapêutico,
Psicanalista
O Cotidiano como Plano de Multiplicidades: Reflexões a
Partir da Clínica Domiciliar
Introdução
No exercício da clínica domiciliar, tenho me aproximado de
maneira significativa da esfera de trocas simbólicas e materiais que constituem
o cotidiano. Essa aproximação se dá não apenas pelo acesso ao
espaço privado dos indivíduos — um universo de intimidade que o domicílio
resguarda —, mas também pelo contato direto com os objetos, utensílios e
rotinas que articulam a relação entre o mundo externo e o interno. Testemunhar
a cadência das atividades que moldam a existência no âmbito mais familiar
possível tem me permitido ressignificar o cotidiano, transcendendo sua
concepção como mero setting, espaço potencial ou cenário passivo.
Neste texto, proponho uma reflexão sobre o cotidiano enquanto plano de
existência, um terreno treliçado de pequenas ações que sustentam a vida em sua
complexidade.
O Cotidiano como Plano: Desconstruindo a Noção de Campo
Parte dessa reflexão emerge de diálogos teóricos, em
especial a partir da interlocução com Àgatha Magiore, que resgatou e introduziu
em nossas discussões o conceito-exercício de esquizo-ocupação,
conforme abordado por Costa e Almeida (2009). Os autores problematizam a noção
de "campo" na terapia ocupacional, argumentando que essa categoria
está atrelada a uma lógica binária e dicotômica, incapaz de abarcar a
multiplicidade inerente às práticas cotidianas. Em contrapartida, propõem a
ideia de plano como um espaço de coexistência e interferência
mútua, onde os elementos não se excluem, mas se intensificam nos encontros.
Essa perspectiva reverbera na compreensão do cotidiano como
um plano dinâmico, no qual hábitos, capacidades, habilidades e relações se
entrelaçam, conferindo sentido à existência humana. A vida, enquanto continuum de
atividades (Quarentei, 2001) , se estrutura a partir dos cuidados que o
indivíduo dedica a si mesmo e ao seu entorno, constituindo uma teia de
significados que ultrapassa a mera repetição de gestos.
Três Terrenos-Conceitos do Cotidiano: Humildade, Prosaico
e Imperfeição
Se o cotidiano se apresenta como um plano de
multiplicidades, é possível identificar três terrenos-conceitos que dialogam
diretamente com sua tessitura: a humildade, o prosaico e
a imperfeição.
- Humildade:
Refere-se ao reconhecimento da fragilidade e da interdependência que
permeiam a vida cotidiana. No domicílio, a clínica se depara com a
vulnerabilidade exposta, exigindo uma postura ética que valorize os
saberes e limites do outro.
- Prosaico:
Diz respeito ao caráter ordinário e aparentemente banal das ações
cotidianas, que, no entanto, sustentam a existência. Como destacam Heller
(2008) e Certeau (2014), é no prosaico que se articulam as estratégias de
resistência e adaptação.
- Imperfeição:
O cotidiano é marcado por falhas, hesitações e ajustes. Longe de ser um
plano homogêneo, ele se constitui nas fissuras, nos gestos interrompidos e
nas reinvenções diárias.
O Cotidiano como Fronteira Interacional e Política
Ao mesmo tempo em que se configura como um espaço de abrigo
e familiaridade, o cotidiano é também um terreno de difícil apreensão, cuja
complexidade só se revela na junção de múltiplas perspectivas, como pontua Das (2024). Ele é
atravessado por dimensões políticas, éticas, afetivas e sociais — desde as
dinâmicas de parentesco e amizade até as expressões de violência, dor e morte.
Como afirma Lefebvre (1991), o cotidiano é tanto um lugar de alienação quanto
de potencial transformação.
Considerações Finais
Pensar o cotidiano como plano implica reconhecer sua
natureza multifacetada e contraditória. Na clínica domiciliar, essa perspectiva
permite uma escuta mais atenta às nuances da existência, onde pensamentos
"se formam no esconderijo da escuridão" — isto é, nos interstícios do
não dito, do improvisado e do aparentemente insignificante. Se, como propõem
Costa e Almeida (2009), o plano é um espaço de interferências e coexistências,
então o cotidiano se revela como um campo fértil para a terapia ocupacional, onde
a vida, em toda sua imperfeição, se desenrola.
Referências
- CERTEAU, M. A invenção do cotidiano. Vozes, 2014.
- COSTA,
C. M.; ALMEIDA, M. V. M. Esquizo-ocupação: desterritorializando a terapia
ocupacional. Cadernos de Terapia Ocupacional, 2009.
- DAS,
V. Texturas do ordinário, Fazendo Antropologia a luz de Wittgeinstein. Editora Unifesp, 2024.
- HELLER, A. O cotidiano e a história. Paz e Terra, 2008.
- LEFEBVRE,
H. Critique of Everyday Life. Verso, 1991.
- QUARENTEI,
M S. (2001). Terapia ocupacional e produção de vida. In Anais do 7º
Congresso Brasileiro de Terapia Ocupacional (pp. 1-8). Porto Alegre:
ABRATO.

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